Queridos leitores,

Se você está lendo esta edição, é sinal de que a caneta (ou o lápis - eu sei que você está usando o lápis, eu avisei na edição de apresentação) já tocou o papel algumas vezes. E eu sei exatamente o que acontece nessa fase: no começo, a gente escreve como quem pede licença. Frases curtas. Letra meio apertada. Aquele cuidado de quem não quer errar, de quem ainda está testando se a página em branco vai morder.

E então, um dia, sem avisar, acontece. A memória bate à porta.

Não a memória que você estava procurando. Outra. Uma que estava escondida atrás de um cheiro, de uma música, do barulho da chuva na calha da casa da sua avó. Ela chega no meio da cena 12, quando você menos espera, e de repente você está escrevendo sobre outra coisa, ou melhor, sobre a mesma coisa, só que mais fundo.

É assim que a memória desperta neste Arco Despertar: não pela força, pela presença. Você não vai atrás dela. Você cria o espaço, quinze minutos, uma página, um lápis e ela vem.

“Deixa eu ver se entendi.
Você está escrevendo há duas semanas e já está esperando a memória chegar como quem espera o delivery?
Não é assim, meu bem.
A memória não toca campainha. Ela arromba a porta. E geralmente chega na hora em que você está escrevendo sobre outra coisa, só para te lembrar que você não manda em nada.
(Dindin acabou de piar bem aqui no meu ouvido, isso significa que está concordando com o que estou falando.)
E outra coisa, vocês passam a vida inteira dizendo ‘não tenho memória’, ‘minha infância foi apagada’, ‘não lembro de nada’. Aí com o ir e vir do lápis, ficam chocados quando a primeira lembrança chega, e vocês percebem que a memória não estava perdida, mas esperando você parar de correr.
E então quero fazer a pergunta que a Sandra não teria coragem:
Qual foi a primeira memória que chegou sem você chamar? E o que ela estava tentando te dizer?”

(PAUSA)

Tem uma pessoa que está escrevendo no guia, mas não está participando do Clube de Escrita que, na terceira semana, me contou que quando se sentou para escrever, sem querer, descreveu o cheiro do café passado no coador de pano e o barulho da xícara batendo no pires. Quando percebeu, estava escrevendo sobre a avó e sobre a mão da avó, que ela não lembrava havia trinta anos. A cena que ela achava que ia escrever ficou para depois, porque a cena que precisava ser escrita veio primeiro.

Sabem o que é isso? É a metodologia CENA trabalhando. A memória sabe o caminho. O seu trabalho é só segurar o lápis.

Orientação de escrita para quem não tem o Guia SelfStory:
Feche os olhos. Pense em um lugar da sua infância, um cômodo, um quintal, uma rua. Agora escreva a primeira coisa que vier: um cheiro, um som, uma textura. Não explique. Não embeleze. Só registre. A cena completa pode vir depois. Hoje, a porta só precisa se abrir.

Temporada Entre Cenas. Minha SelfStory, Minha Vida.
Sandra Mello escreve. Sansan provoca. Você responde. No papel, sempre no papel.

Com afeto.
Sandra Mello

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