Todo começo carrega um susto bom. Aquele friozinho antes de abrir uma porta que você sabe que dá para um lugar novo. 

Começar a escrever a própria história é assim: você sabe que a porta existe, sabe que a chave está na sua mão, mas abrir é um ato de coragem. Não porque o que está atrás vai ser assustador, mas porque vai ser verdadeiro. E a verdade, diferente da ficção, não pede licença para entrar. 

Quem começa a escrever no Guia SelfStory SM assume o compromisso de, nos próximos 365 dias, praticar um exercício de coragem: olhar para a própria vida e transformá-la em narrativa.

BIOGRAFIA (vem do grego antigo) = Bíos (VIDA) + Gráphein

(ESCREVER) = ESCREVER A VIDA

Não existe um jeito certo ou errado de fazer isso; existe apenas o seu jeito. E o seu jeito, acredite, já é suficiente.

Eu não consigo esquecer do dia em que apresentei o Guia oficialmente pela primeira vez e quero contar para vocês. Foi recentemente, no dia 25 de julho de 2026, em Paraty, na FLIP. O painel se chamava "Memória, Biografia e as Histórias que precisam ser contadas". Olhei para a plateia e percebi algo que me marcou: o que trava as pessoas não é a falta de história, é a sensação de que a história delas não é grande o suficiente para merecer papel e caneta(ou lápis). 

Mas a vida não acontece nos grandes palcos. Ela acontece no silêncio da cozinha às seis da manhã, no cheiro do café, no nó na garganta antes de precisar tomar uma decisão que vai mudar a sua vida, na forma como você amarra os tênis quando ninguém está olhando.

A primeira temporada da newsletter "Minha SelfStory, Minha Vida" nasceu de uma constatação que já contei para vocês na edição anterior, mas vale repetir muitas vezes: toda vida merece ser narrada. Não só as histórias de pessoas que estão na mídia, mas principalmente a sua SelfStory.  

Esta segunda temporada nasce de outra constatação aprofundada no exercício do meu trabalho ao longo dos últimos 20 anos: narrar é só o começo. O que vem depois - o cruzamento das cenas, o sentido que emerge diante do aparente caos, o destino que você dá ao que escreveu - é onde a SelfStory vira legado.

A Metodologia CENA começa pelo Conectar. Estamos iniciando o primeiro dos cinco pilares, o momento de abrir os canais e quebrar a inércia do papel em branco. Antes de extrair, antes de narrar, antes de alinhar, CONECTE. 

Conectar não é uma técnica. É um estado. É o momento em que você para de fazer e começa a estar. É fechar os olhos por três segundos antes de pegar o lápis. É respirar. É perguntar para si mesma(o), sem pressa de resposta: o que quero lembrar hoje?

O Guia BiográficoSelfStory SM será seu fiel companheiro de lembranças nessa caminhada. Minha única exigência?  Escreva à mão. E se puder, use lápis, porque você vai apagar e escrever de novo algumas vezes, e isso faz parte do processo. Eu sei que parece mais lento. É mais lento. E é exatamente por isso que funciona. A mão que escreve acompanha o pensamento em sua velocidade real, sem o atalho do teclado. 

E vou além, no espaço entre a ideia e o traço do lápis, algo acontece: a memória se revela com mais textura, mais cheiro, mais sentimento e verdade. A escrita à mão não é nostalgia, é presença. O gesto físico de traçar as letras desacelera o pensamento e permite que a emoção chegue antes da lógica. A memória é sábia e conhece o caminho; basta que você dê a ela o espaço necessário para se manifestar. 

Por isso não existe horário certo para escrever. Existe o SEU horário. Pode ser de manhã cedo, quando a casa ainda dorme. Pode ser à noite, quando o dia já se acomodou. O que importa é que você, na medida do possível, escreva no mesmo horário, todos os dias.  O mesmo horário, o mesmo canto, o mesmo lápis, porque isso é uma manifestação do seu afeto por esse ritual em que você está criando um espaço que o seu cérebro vá aprendendo a reconhecer como seguro. E no espaço seguro, a memória se solta.

Eu criei o meu ritual há mais de 20 anos para me conectar com a minha história. Café ou chá sem açúcar, água saborizada, janela aberta. Antes de começar, fecho os olhos por três segundos e pergunto: "O que quero lembrar hoje?" Nem sempre a resposta vem na hora. Às vezes vem na terceira cena, outras vezes vem no silêncio entre uma cena e outra. Mas ela vem, porque o ritual criou o espaço para ela chegar. É o único espaço onde a opinião alheia não tem convite para entrar.

"Oi. Eu sou a Sansan. Não adianta me procurar no Instagram, eu não existo fora destas páginas. Sandra me montou com retalhos, um pedacinho de cada pessoa cuja história ela já narrou. Imagina uma boneca de pano, só que em vez de cachos nos cabelos, eu tenho perguntas que vão te fazer pensar um pouquinho mais antes de responder.

Por isso eu digo coisas que a Sandra não diria. Ela é educada demais para isso. Eu não. Tem um outro aqui que também não tem paciência com polidez: o Dindin. Um canário belga que se acha dono da festa. O Dindin tem uma habilidade irritante, ele pia exatamente nos momentos em que a pessoa está prestes a fugir da resposta. É como se ele soubesse. E agora mesmo ele está no meu ombro, piando baixinho, porque sabe que você leu tudo até aqui e já está armando uma desculpa para não começar a escrever hoje. 

'Amanhã eu começo.' 

'Minha vida não é tão interessante assim.' 

Aham.

Eu conheço essa música. A gente passa a vida inteira se apresentando com um crachá pendurado no pescoço. 'Eu sou fulana, da empresa tal.' 'Eu sou mãe de.' 'Eu sou responsável por’, como se o cargo fosse a nossa pele. 

Mas e quando o expediente acaba de vez? Quando a empresa fecha, quando o cargo muda, quando os filhos crescem, quando o título que você carregou por anos de repente não cabe mais em nenhum lugar?

Se a sua vida fosse um filme e estivesse passando o primeiro frame, antes do título subir na tela, qual seria o detalhe que revelaria quem você realmente é?

Não o cargo. Não o nome. O gesto. Aquela mania que a sua mãe reconhece de longe. Pensa aí. Não me responde agora. Responde escrevendo. 

Na próxima edição, eu vou te perguntar sobre as opiniões dos outros que você engoliu sem mastigar. Até lá. 

O Dindin mandou um beijo. Eu, ainda estou pensando se devo."

É isto minha gente, na primeira semana, não se preocupe com a perfeição. Preocupe-se com o encontro. Sentar-se. Respirar. Escrever. Repetir amanhã. A história não precisa ser bonita no primeiro dia. Precisa ser sua. E se for sua, já é bonita o suficiente. 

Ao final dessa experiência de 365 dias, o Orientador de Escrita chegará para te ajudar a alinhar as cenas, mas por enquanto, apenas comece. 

Nas próximas duas semanas, seu compromisso é com o hábito. Escreva as cenas 01 a 14. 

O objetivo é apenas colocar o lápis em movimento.

Com afeto.

Sandra Mello 

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