"Sua SelfStory não é o que aconteceu. É o que você faz com o que aconteceu."

Semana passada fui visitar um cliente que virou amigo e observei que as persianas da sala estavam todas fechadas. Aquela penumbra de quem está tão dentro de um assunto que esquece que existe um mundo lá fora.

Olhei para ele e falei:

_ Já viu como tá o tempo lá fora?

_ Não. Com essas persianas fechadas eu não vejo nada que se passa lá fora. 

_ Por que você não abre para arejar um pouco?

Ele se levantou, puxou a corda de uma vez só, jogou os olhos para a janela por um segundo e falou: “Ah, tá bonito!"

E se sentou de volta, virado para mim, pronto para continuar de onde tínhamos parado.

Aí eu fiz o que mais gosto de fazer na vida, comecei tentar esticar a prosa.

"Como foi a experiência de abrir a persiana?" Ele me olhou com aquela cara.

_ Poxa, Sandra. Lá vem você com essa xaropada. Já fiz a sua vontade, abri a persiana. Você não está satisfeita?

_ Não.

De fato, não estava.

E insisti:

_ Você sentiu a textura da corda na palma da mão?

_ Claro que não.

_ E quando a persiana foi abrindo, você percebeu como o mundo foi aparecendo aos poucos? Como se você fosse descortinando a cidade em camadas?

_ Quando eu vi, já estava aberta. Tudo igual como é todos os dias.

Respirei fundo. E falei: "Então deixa eu te mostrar o que você perdeu."

Você está olhando pela janela de um baita prédio bem localizado em São Paulo. Na sua frente, está o Rio Pinheiros, às 10 da manhã de uma terça-feira comum.

Quando você puxa essa corda devagar, e só devagar você vai perceber isso, primeiro aparece a linha do horizonte. Aquela faixa cinza-azulada onde o céu encontra os prédios e parece que o mundo acaba ali, mas não acaba.

Depois, progressivamente, os edifícios vão surgindo em camadas. Os mais altos primeiro. Vidros que capturam o sol de um jeito que parece propositalmente arquitetado, mas é só luz batendo em ângulo certo numa manhã de fevereiro.

A marginal Pinheiros começa a aparecer. Carros que aqui de cima parecem formiguinhas em fila. Cada um com uma história dentro. Uma pessoa atrasada. Outra que acabou de receber uma notícia boa. Deve ter outras tantas ouvindo aquela música que lembra alguém.

O Rio Pinheiros vai surgindo devagar. Aquele espelho d'água que reflete o céu de um jeito levemente torto, como se a cidade estivesse se olhando no espelho e não gostasse muito do que vê, mas continua olhando.

As vegetações da margem. Alguns atletas treinando corrida. A bicicleta que passa. Uma pessoa que atravessa no meio da ciclovia como se o caos ao redor dessa cidade que nunca dorme não fosse com ela.

E por último, o céu. Aquele azul manchado específico de São Paulo, que não é azul de praia. É azul de cidade grande que respira fundo num dia meio ensolarado, mas que já dá sinais de que teremos chuva a qualquer momento. Com uma nuvem aqui. Outra ali. Como pontuação num texto que ninguém escreveu, mas todo mundo lê.

Tudo isso acontece em menos de 30 segundos quando você abre uma persiana.

Meu amigo me olhou com uma mistura de afeto e impaciência.

"Ah, Sandra. Tudo isso é poesia da sua cabeça, que não vale nada."

Sorri.

"Pois é. Mas isso é o que a gente chama de vida."

Ou melhor:

De viver a vida.

A persiana é um exemplo bem arroz com feijão, o mais simples, o mais cotidiano que existe, de uma cena que a gente deixa passar todos os dias.

Você abre a persiana, mas não vive a experiência de abrir a persiana. E por mais incrível que pareça, a gente faz exatamente isso com as cenas da própria história de vida.

Aconteceu. Passou. Próxima cena.

Sem perceber o que estava na textura daquele momento. Sem descortinar o que aquela experiência estava revelando em camadas. Sem registrar o que o cérebro captou, mas a consciência não parou para processar.

E aqui está o ponto que quero te deixar hoje:

Sua SelfStory não é o que aconteceu.

É o que você faz com o que aconteceu.

Pensa comigo. Duas pessoas podem ter a mesma infância difícil.

Uma carrega aquilo como peso. Define sua identidade por ele. Deixa que esse capítulo escreva todos os outros que vieram depois.

A outra transforma aquilo em combustível. Entende o que aquela experiência ensinou. Usa essa compreensão para construir algo que não existiria sem ela.

A infância foi a mesma. A SelfStory, não.

Porque a SelfStory não é o inventário dos fatos. É o significado que você atribui a eles. É a consciência com que você revisita cada cena.

É a escolha de descortinar o que estava ali, devagar, em camadas, em vez de puxar a corda de uma vez e virar de costas.

O meu amigo abriu a persiana, mas não viu o Rio Pinheiros. Não viu o azul específico de São Paulo naquela manhã de uma terça-feira comum.

Não porque a vista não estava lá. Mas porque ele não estava presente para ela.

E a pergunta que fica para você hoje é essa:

Quantas cenas da sua própria história você abriu e fechou sem realmente ver?

Quantos momentos passaram como uma terça-feira comum quando, na verdade, havia um Rio Pinheiros inteiro esperando para ser descortinado?

Quantas pessoas, conversas, despedidas, começos, recomeços você puxou a corda de uma vez e virou de costas antes de ver o que estava sendo revelado?

Não estou falando de viver devagar num mundo que não para. Estou falando de presença seletiva e consciente com as cenas que importam.

De parar de vez em quando e perguntar: "Como foi a experiência de abrir essa persiana?"

Mesmo que pareça xaropada a pergunta. Especialmente quando parece.

Porque é justamente nas persianas que abrimos sem pensar que está grande parte da nossa história. E a diferença entre uma vida vivida e uma SelfStory poderosa está exatamente nisso:

No que você decidiu ver. Escolheu registrar e no significado que teve a coragem de construir.

Sua SelfStory não é o que aconteceu. É o que você faz com o que aconteceu.

E isso começa por estar presente quando a persiana abre.

Até a próxima cena, 

Sandra Mello Biógrafa Roteirista | Criadora da Metodologia CENA

💬 REFLEXÃO DA SEMANA:

Qual foi a última "persiana" que você abriu sem realmente ver o que estava do outro lado? Me conta. Estou curiosa.

(Responde esse e-mail. Leio tudo. E em breve teremos uma notícia muito especial para dar aos inscritos nessa newsletter, mas só aos que estiverem dispostos a abrir a persiana... e a forma de demonstrar isso para mim é respondendo a esse e-mail. )

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