Coisas que o tempo jamais vai apagar
Eu sou biógrafa roteirista há mais de 20 anos. Já me sentei na frente de um grande número de famílias para registrar histórias de vida. E em algum momento dessa conversa, quase sempre, alguém baixava a voz e dizia:
"Se eu pudesse voltar atrás, teria aproveitado mais…"
Não era arrependimento de trabalho, de finanças ou sobre a carreira. Era de tempo. De presença. De cenas simples que deixaram passar achando que iam durar para sempre.
Então lê isso devagar. Se toca e faz enquanto dá tempo.
Pergunta aos seus pais como eles eram na sua idade. E escuta de verdade. Sem corrigir, apressar ou ficar olhando o celular a cada minuto.
Seu pai e mãe jovens são pessoas que você quase nem imagina como eram. E é impressionante como você vai se identificar com as escolhas que eles fizeram, com os medos que tiveram, com os sonhos que carregavam.
Vai entender muito de si mesmo nessa conversa.
Aproveita que já está com seus pais e pergunta para cada um qual foi o momento que mais transformou a vida deles. Não como pai. Não como mãe. Como pessoa.
Prepare-se. A resposta vai te apresentar alguém que você ainda não conhece direito.
Anota as histórias que eles contarem sobre a sua infância, mas com as palavras deles. Exatamente como contam. Com os trejeitos, as pausas, os detalhes que só eles sabem e que nunca vão aparecer em nenhuma foto.
Essas palavras são parte da sua história. E só eles podem te dar.
Pergunta do que eles mais se orgulham de terem feito, no tempo que fizeram. A resposta pode te surpreender e emocionar no último grau.
Assistam juntos o filme favorito deles. Sem celular. Sem pressa. Deixa comentarem cada cena, cada personagem, cada detalhe que só eles enxergam. Você vai entender muito sobre quem eles são, e sobre quem você é, nesse momento simples que parece não ter importância nenhuma.
Escreve sobre isso depois, com suas palavras, enquanto ainda está fresco.
Passa um dia inteiro fazendo só o que eles amam. Esquece tudo que planejou. Sai do seu ritmo e entra no ritmo deles, no programa deles e no timing deles.
Esse dia vai parecer apenas mais um dia na vida de vocês, mas essa cena ainda vai provocar muitos flashbacks na sua vida. No melhor sentido.
Diz para cada um algo que te ensinaram e que mudou a forma como você vê o mundo. Diz olhando nos olhos. Com calma. Sem pressa de ir embora. Eles precisam ouvir isso de você e você precisa dizer isso para eles.
Não espera o momento perfeito. O momento perfeito é esse.
Leva cada um para um lugar que marcou a vida deles. A rua onde cresceram. A escola. O bairro do primeiro emprego. O lugar onde se conheceram. Vá junto de corpo e alma, caminhe no ritmo deles, veja com os olhos deles. Sinta o que esse lugar carrega. Depois registra tudo.
Você vai começar a entender tantas coisas da sua própria vida que antes não faziam sentido.
Agora vem a parte que parece bobagem, mas não é:
Filme sua mãe, madrinha ou avó (pode ser todas!) te ensinando aquela receita que você lambe os beiços só de pensar. Cada medida errada, cada "vai no olho", cada história por trás de cada ingrediente.
Ela não está só te ensinando a cozinhar, mas entregando um pedaço da vida dela.
E isso vale mais que qualquer herança.
Filme seu pai, tio, avô (pode ser todos!) fazendo aquilo que só ele sabe fazer: comprar o peixe certo na feira ou a carne certa do churrasco, fazer aquele molho que ninguém consegue imitar, improvisar algum conserto com o que tem à mão, tomar aquela cervejinha "no ponto" num papo que não tem hora para acabar.
Você acha que vai lembrar tudo na sua vida, para sempre, mas a memória tem lacunas. O vídeo, pode ajudar a suprir essas lacunas.
Grava sua mãe cantando aquela música que ela adora cantarolar pela casa, às vezes até soltando o corpo na dança sem perceber. E grava seu pai contando aquela história que ele repete toda reunião de família, com os mesmos detalhes, a mesma entonação, o mesmo brilho no olho.
Você acha que nunca vai esquecer. Vai. E vai fazer uma falta que você não está preparado pra sentir.
E por último:
Grava eles dizendo "eu te amo." Os dois. Olhando para câmera. Pode ser desajeitado, pode ser com risada, pode ser com vergonha, grava assim mesmo.
Porque no dia em que a saudade apertar de um jeito que você nunca sentiu antes, (e vai apertar!) você vai poder dar play. E ouvir de novo.
E escrever essa cena com uma baita sensação de plenitude e gratidão pela vida que recebeu de presente.
A sua vida começa quando você escreve a sua própria história.
E as cenas mais bonitas dessa história já estão acontecendo agora.
Não deixa passar sem registrar.
Um abraço.
Sandra Mello