Olá!

Tem momentos em que a vida fala baixinho. Não grita. Não manda notificação. Não pede atenção. Simplesmente está lá, radiante e quieta, esperando que você pare o suficiente para ouvir.

Foi o que aconteceu comigo e uma orquídea.

No dia do lançamento do meu livro infantojuvenil "O Adivinhador", a Dani e o Carim me presentearam com uma orquídea tão linda que pedi à Gabi, gerente da livraria, para deixá-la em destaque no balcão principal. Longe da agitação da mesa de autógrafos. Longe do risco de levar um tombo.

Só que na hora de ir embora, no corre e na emoção do evento, eu esqueci a planta.

Como na semana seguinte a livraria não abriu porque entrou em obras, só consegui buscá-la sete dias depois.

E sabe o que eu esperava encontrar?

Uma planta murcha. Ressentida. Com aquela cara de "você me abandonou".

O que encontrei foi ela. Radiante. Exatamente como a tinha deixado.

Como se o tempo não tivesse passado. Como se ela soubesse, com uma certeza que eu não tinha, que eu voltaria.

Ela chegou em casa e alegrou meus dias com aquele verde-rosa vibrante durante semanas.

Até que as flores cumpriram seu ciclo e caíram.

Outubro de 2025: floriu de novo. Menos flores. Ciclo mais curto. E depois, só folhagem. Linda, viva, presente, mas sem flores.

E eu parei. Fiz silêncio diante dela. Não o silêncio de quem não tem o que dizer, mas o silêncio de quem percebe que está diante de algo que tem muito a ensinar, se você parar de esperar que ele fale no seu idioma.

Corta.

Nova cena: 31 de dezembro de 2025.

Estava arrumando a mesa da ceia. Queria flores no vaso lindo que a Cida e o Dante tinham me dado no Natal. Mas tudo já estava fechado. Pensei em descer ao bosque, procurar no jardim do prédio... e foi aí que meus olhos encontraram a folhagem da orquídea.

Aquelas folhas que eu tinha olhado tantas vezes como "a fase sem flores". Cortei e coloquei no vaso com água.

Ficaram lindas. Deram vida à mesa. À virada do ano. Ao recomeço.

O que antes parecia ausência era, na verdade, matéria-prima para um novo começo.

E eu quase não teria visto isso se não tivesse feito silêncio diante dela.

O que a arte já sabia sobre o silêncio

A arte sempre soube o que a gente demora para aprender. Que o silêncio não é ausência, mas sim onde tudo começa.

O poeta:

Manoel de Barros passou a vida inteira ensinando isso. Em versos simples, quase infantis na forma, mas profundos como poço fundo, ele insistia que as coisas pequenas e esquecidas carregam a maior sabedoria.

"O que é bom para o lixo é bom para a poesia."

Uma orquídea sem flores numa mesa de réveillon concordaria.

Manoel não escrevia sobre o silêncio como conceito. Ele praticava o silêncio na própria escrita, nas pausas entre um verso e outro, nos espaços em branco que dizem tanto quanto as palavras.

Como se soubesse que é justamente ali, no que não é dito, que mora a mensagem mais importante.

O filme:

Paterson (2016), de Jim Jarmusch, é um filme sobre um motorista de ônibus que acorda todo dia no mesmo horário, dirige a mesma rota, volta pra casa, passeia com o cachorro, para no mesmo bar. Não acontece quase nada. E é exatamente esse o ponto.

Porque no silêncio da rotina, Paterson encontra poesia em tudo, na caixa de fósforos que a namorada deixou na mesa, na conversa de dois caras no bar, na cachoeira que visita toda manhã antes do trabalho.

Ele não foge do ordinário, mas se aprofunda nele. E transforma cada cena invisível em algo extraordinário.

O filme é uma aula silenciosa sobre o que acontece quando você para de preencher o tempo e começa a habitá-lo.

O documentário:

Fungos fantásticos (2019, Netflix) começa embaixo da terra.

No silêncio absoluto de um mundo que existe há 3,5 bilhões de anos e que a gente passa a vida inteira pisando por cima sem ver.

O documentário mostra como os fungos formam redes subterrâneas gigantescas de comunicação, chamadas de wood wide web (internet das árvores), conectando árvores, nutrindo florestas inteiras, sustentando a vida acima do solo.

Em silêncio. Sem aplausos. Sem que ninguém perceba, como as fases sem flores de uma orquídea. Como as cenas da nossa história que passam sem registro, mas que estão, silenciosamente, sustentando tudo o que vem depois.

A arte, aqui representada pelo poema, pelo filme e pelo documentário, não chegou a essas conclusões por acaso.

Chegou porque alguém parou, fez silêncio e ouviu o que estava sendo dito nas entrelinhas.

É exatamente isso que as cenas da sua própria história pedem de você.

A gente vive com muito barulho por dentro.

Podcast no fôlego. Música entre uma tarefa e outra. Scroll infinito no momento em que o silêncio ameaça chegar. A TV ligada sem ninguém assistindo, só para não ficar quieto demais.

Porque no silêncio, as cenas aparecem. E nem sempre estamos prontos para ver o que elas têm a dizer.

Mas é exatamente no silêncio que as mensagens mais importantes chegam. Não as mensagens barulhentas, que chegam com urgência e prazo. As que sussurram.

Que nem toda fase precisa de flores para ter sentido. Que ser esquecida não significa ser abandonada. Que ciclos curtos não são ciclos fracassados. Que folhagens também têm propósito, mesmo quando ninguém aplaude.

Que o que parece "sobra" pode ser exatamente a matéria-prima do seu próximo começo.

A orquídea não gritou nada disso para mim.

Ela simplesmente existiu com dignidade em cada fase e esperou que eu fizesse silêncio o suficiente para ouvir.

E as perguntas que ficam para você hoje são essas:

O que você tem evitado ouvir quando o silêncio chega?

Que cena da sua vida está esperando, radiante e quieta, que você pare o suficiente para ver o que ela tem a dizer?

Que "fase sem flores" sua está sendo ignorada quando poderia ser a matéria-prima de algo novo?

As cenas da nossa história carregam mensagens essenciais.

Mas só quem para ouve, e na maioria das vezes, só percebemos se estivermos em silêncio. Só quem olha com outros olhos transforma o ordinário em extraordinário.

Protagonismo não é estar sempre em flor. É saber qual é o seu papel em cada estação. E isso começa por fazer silêncio diante das cenas que a vida coloca na sua frente.

Mesmo, e especialmente, quando elas parecem não ter flores.

Até a próxima cena, 

Sandra Mello Biógrafa Roteirista | Criadora da Metodologia CENA @sandramellosma2

💬 REFLEXÃO DA SEMANA:

Qual é a sua "fase sem flores" agora?

E o que ela pode estar tentando te dizer?

Me conta. Responde esse email. Leio tudo e adoro quando isso acontece. 🌿

P.S.: Se você ainda não assistiu Fungos fantásticos na Netflix, fica a sugestão. É o tipo de documentário que muda a forma como você olha para o mundo e para as suas próprias fases silenciosas.

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