Tem gente que tem talento.

Tem gente que tem técnica.

E tem gente que tem SelfStory bem contada.

Essas três coisas parecem a mesma coisa. Mas não são.

O talento e a técnica são comuns.

O talento é aquele dom inato que nasceu com você. Tem gente que nasce sabendo contar histórias, outros nascem com talento para ouvir, tem quem nasce com o dom de fazer as pessoas rirem.

A técnica você estuda, aprende, refina. É aprendível. É replicável. Existem cursos para isso.

Mas e a SelfStory bem contada?

(PAUSA PROPOSITAL)

Essa é rara.

Tem gente que chama SelfStory de biografia. De história de vida. De relato biográfico. De memórias.

Todas essas definições estão certas, mas no fundo, todo mundo sabe reconhecer quando vê uma mistura de autenticidade, improviso e alegria interior.

Uma confiança de falar o que pensa, sem medo, sem seguir protocolo, sem pedir licença.

É aquela pessoa que entra em qualquer lugar como se fosse seu. Que não perde a oportunidade de contar uma cena da sua vida, melhorando os detalhes com a maestria de quem sabe que toda história precisa de ritmo.

Que transforma perrengues em piadas. Roubadas em lições. Cenas do cotidiano em cenas de novela.

Que transforma mimimi em solução, silêncio em conversa.

E sabe o que as pessoas costumam dizer quando convivem com alguém assim?

"Essa pessoa sabe viver."

Não é elogio. É constatação. É observação de quem vê alguém que não apenas viveu, mas que compreendeu o que viveu. E soube contar de um jeito que a história fica viva em quem ouve.

No fundo, tudo se resume a isto:

Ter uma SelfStory bem contada é fazer o outro olhar e pensar:

"Essa pessoa sabe viver."

Mas como é que se consegue isso?

Porque toda história de vida tem cenas incríveis, transformações e tem algo que merecia ser contado com a atenção que recebe quando é contado bem.

Esse é o ponto. Não é falta de material. É falta de registro.

Ter uma SelfStory bem contada é:

Reconhecer que toda cena da sua vida foi, é e vai continuar sendo importante para você entender e protagonizar com muito talento a história maravilhosa que veio contar.

Porque quando você pensa que a vida é importante e realmente acredita nisso, a forma como você conta as cenas da sua vida muda, porque você começa a prestar mais atenção no que realmente viveu, a perceber detalhes que antes passaram batidos.

Começa a entender que o almoço de domingo com avó não é "apenas um almoço", é a cena onde você aprendeu que amor tem gosto de comida feita com paciência.

Que o primeiro encontro com alguém que vai trazer novos valores para a sua vida não é "apenas um encontro", é o ponto de virada onde a sua história muda de ato.

Que aprender algo novo que nunca tinha parado para pensar não é "apenas informação", mas o momento em que você reconhece um padrão que explica tudo que veio antes.

Transformar a forma como você narra as cenas ordinárias da sua vida em algo extraordinário, não porque você mente, mas porque você se vê com uma nova percepção.

Porque você aprendeu que toda história, quando bem contada, revela verdades que a pessoa nem sabia que estava buscando.

A mulher que transforma o cansaço em perseverança na hora que conta como acordou cedo todo dia por meses para fazer algo que importava.

O homem que transforma o medo em coragem quando narra o momento em que enfrentou a conversa que tinha medo de ter.

A mãe que transforma o "dia comum" em "o dia que entendi que ser forte não significa não chorar."

Não é só um processo de embelezamento da escrita, mas de sentir-se iluminada(o) para escrever.

É colocar a câmera no ângulo certo para que a verdade brilhe.

Vibrar com o conhecimento de que sim, você tem talento, carisma e que talvez o que está faltando é simplesmente prestar mais atenção aos detalhes da sua história do que nas dos outros.

Porque quando a gente chega cheia(o) de história e personalidade e realmente acredita que a própria história é importante, todo mundo presta atenção na gente.

Não por acaso, mas por coerência.

Por transmitir verdade.

Mas tem um equívoco que a maioria das pessoas comete sem perceber: elas dizem: "Minha história não tem nada de interessante. Ninguém vai se interessar em saber nada da minha vida."

E isso é a maior balela que já ouvi. Porque não é o material que falta. É a forma de contar.

A gente percebe bem quem cuida da própria história.

São pessoas que entram em qualquer lugar como se fosse seu. Porque entendem que a história delas merece ser ouvida. E essa confiança vale muito na vida.

São pessoas que não perdem a oportunidade de contar cenas da sua SelfStory, melhorando os detalhes, encontrando o ritmo, percebendo onde está o drama que todo mundo sente, mas nem todo mundo consegue nomear.

São pessoas que transformam perrengues e roubadas em aprendizados, muitas vezes até bem engraçados. Porque aprenderam que humilhação só é humilhação se você não souber contar. Se você contar bem, vira novo aprendizado. Vira libertação. Vira a coisa que faz o outro pensar: "pois é, eu também já passei por isso."

São pessoas que transformam cenas do cotidiano em cenas de novela. Porque entendem que drama não é exagero. Drama é verdade vista de perto.

São pessoas que transformam mimimi em solução. Porque quando você conta a história de como você passou de vítima para protagonista, a história muda de gênero. De tragédia para épica.

São pessoas que transformam silêncio em conversa.

Porque sabem que o silêncio é só um estágio antes da pessoa ter coragem de contar.

E aqui está o ponto que quero que você entenda com profundidade:

A forma como você ESCREVE sua história molda a forma como você vai CONTAR sua história.

Não é separado. É interligado. E aqui é onde entra algo que venho repetindo ao longo das últimas edições:

A escrita à mão não é romantismo. É estratégia.

Quando você escreve à mão, quando você segura lápis ou caneta e toca o papel, você ativa circuitos cerebrais que nenhuma outra forma de registro consegue ativar.

A Professora Karin James provou isso: a escrita manual cria conectividade cerebral significativamente maior em áreas associadas a aprendizado, memória e processamento emocional.

Mas tem algo que a ciência ainda está aprendendo a nomear, algo que você já sabe, intuitivamente: quando você escreve à mão, você entra em conversa com o que está escrevendo.

Não é passivo como digitar, nem rápido como falar. É lento, deliberado e presencial.

E é nesse espaço lento e presencial que a transformação acontece. Porque quando você escreve à mão sobre a cena do almoço de domingo, você sente o cheiro da avó. Você ouve a voz dela. Você reconhece, pela primeira vez, que aquele almoço não era apenas almoço.

Era transmissão. Era legado. Era amor traduzido em batida de bolo. E quando você escreve isso à mão, no papel, com o lápis ou caneta traçando as palavras, o seu cérebro não apenas registra. Ele integra cenas.

Ele entende que essa cena importa. E essa compreensão muda a forma como você vai primeiro contar para você mesma(o) e na sequência, como vai contar para o mundo.

Porque quando você chega cheia(o) de histórias que foram realmente processadas, que foram conectadas com sentido, todo mundo sente.

E é aí que acontece o que todo mundo que cuida da SelfStory consegue: "Essa pessoa sabe viver."

SelfStory bem contada é quando você entende que: tem talento, sim. Tem carisma, também e protagoniza histórias que merecem ser ouvidas.

E que talvez o que está faltando é simplesmente começar a registrar.

À mão. No papel. Com a câmera apontada para os detalhes que você sempre achou que não importavam, mas que importam demais.

“Porque quando a gente chega cheia(o) de história e personalidade, acreditando realmente que a própria história é importante e escreveu, de verdade, sobre as cenas que viveu...

Aí sim, todo mundo presta atenção em você.”

(Sandra Mello)

💬 REFLEXÃO DA SEMANA:

Pensa numa pessoa que você conhece que "sabe viver."

Aquela que entra em qualquer lugar como se fosse seu. Que conta histórias que você nunca esquece. Que transforma o ordinário em extraordinário.

Agora pensa: qual é a diferença entre a vida dela e a sua?

(Spoiler: não é a vida que é diferente. É a forma como ela contou que fez diferença.)

Me conta: qual é a cena da sua vida que você achou que "não tinha graça", mas que, contada bem, revelaria algo verdadeiro sobre quem você é?

Responde esse e-mail. Adoro quando isso acontece. 

Até a próxima cena, 

Sandra Mello

Biógrafa Roteirista | Criadora da Metodologia CENA

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