Tem um cheiro específico de fim de ciclo, mas não é o cheiro de despedida, que a gente associa a aeroportos, a abraços apertados, a olhos que pisam. Ele é bem mais sutil e traiçoeiro: é o cheiro de uma manhã comum que você ainda nem se toca que será a última.

Eu senti esse cheiro em um dia do mês de dezembro de 1978, no Colégio São Paulo, em Teresópolis.

Era o último dia letivo do terceiro ano do segundo grau, que na atualidade se chama ensino médio. Uma vida inteira estudando no mesmo colégio, com um grupo grande de pessoas que seguiram nessa escalada de formação educacional comigo e desse dia em diante cada um seguiria sua história, suas escolhas e escreveria as cenas da SelfStory.

Aquela manhã tinha a textura de todas as outras manhãs, o barulho dos corredores, as vozes conhecidas, os rituais de sempre. O tipo de dia que a gente atravessa sem cerimônia porque ainda não entendeu que está atravessando uma fronteira.

De um lado: tudo que eu tinha sido até ali. Do outro: a Faculdade de Letras, no Rio de Janeiro, o namoro que estava sinalizando que viria um casório. Uma Sandra que ainda não existia, mas que estava prestes a começar.

E na fronteira, naquele dia comum que era, na verdade, extraordinário, eu não sabia o que estava perdendo ao não parar para guardar.

No dia seguinte seria o cerimonial de formatura, todo mundo bem alinhado para subir ao palco e receber o diploma, tirar foto com a galera tão querida. 

Entre todos, lá estava Leana, minha amiga de tantas vidas até os dias de hoje, que segurou na minha mão no dia do meu parto, que batizou meu filho Bernardo e esteve presente em todos os momentos mais significativos da minha vida. Lembro de todos os detalhes desse dia, mas do dia anterior, que foi um último dia de algo tão marcante, quase todas as cenas passaram batidas.

Hoje, décadas depois, quando revisito essa cenário, percebo duas coisas ao mesmo tempo. A primeira: o quanto aquele último dia de colégio, véspera do dia da formatura carregava cenas que eu deixei passar sem registrar. A segunda: o quanto a forma como eu falei sobre aquele dia, para mim mesma ao longo dos anos, moldou a história que eu acreditei ser verdadeira sobre aquela fase.

E é exatamente sobre isso que quero falar com você hoje. Porque as duas coisas estão conectadas de um jeito que a ciência leva décadas para provar.

Você está perdendo cenas que um dia vai querer ter guardado

Existe um tipo de perda que não dói na hora. Dói depois. Quando você procura uma cena na memória e encontra apenas fragmentos.

Quando quer contar como foi “aquele” último dia de alguma atividade que não faz mais, o réveillon de mil novecentos e farinha, a despedida que não aceitou até hoje, aquele primeiro dia numa cidade nova, e percebe que o que sobrou foi uma impressão geral, não uma cena viva.

E aqui vai uma constatação que venho observando há muito anos: as cenas da nossa história não desaparecem de uma vez. Elas vão se apagando devagar, nos detalhes que nunca foram escritos, nas palavras que nunca foram ditas em voz alta, nos momentos que atravessamos correndo porque ainda não sabíamos que eram importantes.

Mas tem algo ainda mais profundo do que a perda dos detalhes.

E é sobre isso que a ciência mais recente tem coisas extraordinárias a dizer.

Como a forma como você conta sua história molda quem você acredita ser

Existe uma área da psicologia chamada Identidade Narrativa, ela estuda algo que vai direto ao coração do que faço como biógrafa roteirista:

A história que você conta sobre você mesma não é apenas um relato do que aconteceu. É a construção ativa de quem você acredita ser.

O professor Dan McAdams, da Universidade Northwestern, é o pesquisador que mais se dedicou a estudar esse fenômeno. Em décadas de pesquisa, McAdams chegou a uma conclusão que parece simples, mas tem implicações enormes:

"Primeiro inventamos histórias. Depois elas nos transformam."

E não estou me referindo à cenas de ficção, mas sim no que acontece no nosso cérebro quando narramos nossa SelfStory.

A história que você escolhe contar, os detalhes que inclui, as palavras que usa, o tom que adota vai literalmente moldando os circuitos neurais que determinam como você se vê, o que você acredita ser capaz de fazer e como você enfrenta o que vem pela frente.

O pesquisador Jonathan Adler, do Olin College of Engineering, aluno e parceiro de pesquisa de McAdams, identificou algo ainda mais específico: as histórias de vida se organizam em dois grandes padrões narrativos.

Sequências de redenção: cenas que começam difíceis e são narradas como tendo levado a algo bom. "Passei por aquilo, mas foi o que me ensinou a..."

Sequências de contaminação: cenas que começam bem e são narradas como tendo acabado mal. "Tudo estava indo bem até que..."

O que Adler descobriu em estudos que acompanharam pessoas ao longo de anos, é que o padrão narrativo que você usa consistentemente prediz diretamente seu bem-estar psicológico.

Não é o que aconteceu que determina como você está. É como você conta o que aconteceu.

Pessoas que narram suas experiências com sequências de redenção apresentam: 

👉 Maior resiliência diante de adversidades 

👉 Melhor saúde mental a longo prazo 

👉 Maior senso de propósito e coerência de vida 

👉 Telômeros mais longos, o que, trocando em miúdos significa que envelhecem biologicamente mais devagar

As palavras que você escolhe criam as emoções que você sente

A neurocientista Lisa Feldman Barrett, da Universidade Northeastern e professora associada de Harvard, foi ainda mais fundo nessa descoberta.

Em seu trabalho revolucionário sobre a construção das emoções, Barrett demonstrou que as palavras que você usa para descrever uma experiência não apenas a descrevem, elas a constroem.

Pois é, parece que nosso cérebro usa a linguagem como matéria-prima para criar emoções.

Isso significa que quando você narra uma cena com as palavras "fui um fracasso naquilo", seu cérebro não está apenas registrando uma avaliação, ele está construindo ativamente a experiência emocional do fracasso, com todas as suas consequências neurológicas e biológicas. E o inverso também é verdadeiro.

A reescrita que transforma: trocando o vocabulário da sua SelfStory

É aqui que tudo se conecta.

Se a forma como você narra suas cenas molda quem você acredita ser, e se as palavras que você escolhe constroem as emoções que você sente, então, reescrever a forma como você fala de você mesma(o) é um dos atos mais transformadores que existem. Não como negação ou autoajuda rasa. Como precisão narrativa.

Como o ato consciente de escolher palavras que descrevem a realidade com mais fidelidade e que abrem caminho para o que vem a seguir, em vez de fechá-lo.

Veja a diferença:

Em vez de: "Fiz tal coisa, mas não devia ter feito dessa forma."

Experimente: "Fiz tal coisa. Não saiu como eu desejava. Mas entendo como uma lição que precisava para crescer."

O fato é o mesmo. A cena é a mesma. Mas a segunda versão abre uma porta que a primeira fecha com chave.

Em vez de: "Por que isso foi acontecer logo comigo?"

Experimente: narrar a situação em detalhes, por escrito, lendo em voz alta para você e se perguntar: "o que isso quer me ensinar?"

A primeira versão coloca você como vítima da cena. A segunda coloca você como aprendiz dela.

Em vez de: "eu chego à conclusão que não me encaixo em nenhum grupo que convivo."

Experimente: narrar como você se comporta nesses grupos. A receptividade que recebe. Os esforços que faz para se encaixar onde talvez não caiba.

E então trocar o pensamento de buscar se encaixar para reconhecer que você é um ser único que precisa pertencer onde é valorizada(o).

As cenas da sua vida vão mudar. E muito.

Em vez de: "me sinto completamente travada(o) diante dessa situação, não sei o que fazer."

Experimente: "Ainda não estou certa(o) sobre o melhor a fazer. Mas mesmo assim posso fazer tal e tal coisa para encontrar novas formas de avançar. Posso também pedir ajuda de aliados que me complementem."

A primeira versão paralisa. A segunda movimenta, mesmo na incerteza.

O fio que une tudo

Na News 11, falamos sobre estar presente nas cenas.

Na News 12, falamos sobre fazer silêncio para ouvi-las.

Na News 13, falamos sobre ler em voz alta para processá-las.

E hoje chegamos ao ponto mais profundo de todos:

A forma como você escreve sobre você mesma(o) vai moldando quem você acredita ser.

E se você trouxer as suas cenas guardadas, assim como eu trouxe as cenas do Colégio São Paulo, do réveillon de 25 anos atrás, da orquídea que sobreviveu sozinha, não como peso, mas como incentivo, aí sim você vai se encaixar, sem esforço, na história mais poderosa que você veio contar.

A sua.

E essa história, a sua SelfStory, merece ser contada com as palavras certas.

Na edição 15 vou te mostrar como, mas antes ainda teremos uma edição especial na próxima semana, trazendo uma reflexão que você vai se apaixonar.

Março está no meio de nós. E com ele, vão chegar também novidades que preparei especialmente para você. 

💬 REFLEXÃO DA SEMANA:

Escolha uma cena da sua história que você narra há anos com uma sequência de contaminação, como por exemplo, “estava tudo bem até que..." ou "fiz, mas não devia..."

Agora reescreva essa cena e leia em voz alta, para você mesma(o), com uma sequência de redenção.

O que muda quando você ouve essa nova versão com a sua própria voz?

Me conta. Responde esse e-mail. Prometo que vou responder assim que possível, ok?

Até a próxima cena, 

Sandra Mello

Biógrafa Roteirista | Criadora da Metodologia CENA

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